O novo presidente do Brasil alvo de várias acusações criminais.

ADVN - Desiludido com a política tradicional, o Brasil assiste à ascensão de um personagem que desperta sentimentos contraditórios, mas é tratado como “mito” por seus admiradores. Mito, segundo os dicionários, é uma ficção, um ser sobrenatural, um herói, uma figura cuja existência não pode ser comprovada e domina o imaginário coletivo.

 O “mito” Jair Messias Bolsonaro, 62 anos, tem como marcas as posições extremadas, a postura de enfrentamento constante e os discursos agressivos, em que reivindica ser o defensor e restaurador da ordem perdida. 

Capitão reformado do Exército, vende-se como homem acima de qualquer suspeita. Mas suas três décadas de trajetória política são bem menos épicas do que supõem muitos dos seus seguidores. Já usou verba da Câmara para custear despesas durante viagens em que teve atividades de pré-candidato a presidente. Tornou-se objeto de atenção pública, pela primeira vez, acusado de planejar a explosão de bombas em instalações militares.
Sua produção legislativa é pífia. Nunca ocupou cargo de destaque na Câmara. Sempre integrou o chamado baixo claro, grupo de congressistas com pouca projeção, e é mais conhecido pelas confusões em que se mete do que por sua atuação parlamentar.Um dos seus trunfos é que jamais foi envolvido em qualquer caso de corrupção.
Mas foi alvo de várias acusações criminais. No portal do Supremo, aparece como réu em duas ações penais, nas quais é acusado de injúria e apologia do estupro por ter afirmado, na Câmara, que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT-RS) porque ela “não merece”. Em 2015, foi condenado pela Justiça a indenizar a parlamentar em R$ 10 mil pela mesma razão e também a indenizar em R$ 150 mil o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos do Ministério da Justiça, por fazer declarações homofóbicas num programa de TV. A decisão foi confirmada este ano pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
É ainda investigado pelo Ministério Público por apologia da tortura, por ter homenageado o coronel Brilhante Ustra, primeiro torturador reconhecido como tal pelo Judiciário brasileiro, ao votar pelo impeachment de Dilma, em abril de 2016. Para entender o fenômeno Bolsonaro, a Revista Congresso em Foco ouviu, ao longo de cinco semanas, mais de duas dezenas de pessoas. Só não conseguiu entrevistar o próprio deputado, que marcou entrevista algumas vezes, mas terminou adiando de última hora.
Incógnita ambulante
Embora atue como parlamentar há quase 30 anos, Bolsonaro é um grande desconhecido para diversos setores da economia e da sociedade. O deputado – que chegou a declarar que, se fosse eleito presidente, entregaria metade do ministério aos militares – é uma incógnita ambulante. A habilidade dele para criar conflitos é tão grande quanto a desconfiança sobre sua capacidade de governar o país. Sempre que é instigado a falar de assuntos mais complexos, como economia, esquiva-se e volta a sua artilharia verbal aos inimigos de sempre: negros, mulheres, gays, “bandidos”, adolescentes, sem-terra, entre outros. A virulência das declarações do deputado é objeto de repulsa e, ao mesmo tempo, de admiração, conforme o público que as recebe. Cada vez mais popular, surfa na onda de decepção com políticos e partidos tradicionais, como o PT e o PSDB.

De acordo com o Datafolha, desde abril, quando alcançou pela primeira vez 15% das intenções de voto para presidente, está atrás apenas do ex-presidente Lula, à frente de figuras como Marina Silva (Rede), Aécio Neves (PSDB), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT). No último levantamento divulgado pelo instituto, no começo de dezembro, ele alcançava até 19% das intenções.

Três décadas, uma lei

Bolsonaro promete “endireitar” o país, mas tem dificuldade para demonstrar eficiência. Na Câmara desde 1990, teve apenas um projeto de sua autoria convertido em lei (a de n° 10.176, de 2001). A proposta, apresentada por ele em 1996, prorrogou benefícios fiscais para o setor de informática e automação.

Em quase três décadas como deputado, nunca relatou proposições de destaque nem presidiu comissões ou liderou bancada. Na área da segurança pública, sua principal bandeira, não emplacou qualquer sugestão. O deputado já passou por quatro partidos e, atualmente, procura o quinto para sua candidatura presidencial. Seus dias no PSC estão contados desde que brigou com a direção nacional da legenda, que considera suas posições radicais demais, mesmo para um partido com base no eleitorado evangélico conservador.

Ainda que conhecido de início como um sindicalista do baixo oficialato, Bolsonaro diminuiu a atenção que dispensava ao assunto à medida em que percebeu que seu discurso atraia um público mais amplo. Mais recentemente propôs também incluir o nome de Enéas Ferreira Carneiro, ex-deputado e fundador do extinto Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona) no Livro dos Heróis da Pátria, ou que os civis tenham de colocar a mão sobre o peito quando da execução do hino nacional.

Seu projeto de castração química de estupradores, duramente criticado por feministas, movimentos sociais e cientistas, apresentado em 2013, está parado aguardando parecer na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ).

Para a mídia ver

Com uma legião crescente de seguidores nas redes sociais, uma de suas maiores âncoras, e sempre recepcionado em aeroportos com gritos de “mito”, Jair Bolsonaro tem trânsito limitado na Câmara, onde está desde 1991. Pode ser encontrado às gargalhadas com deputados das bancadas evangélica e da bala (formada por defensores do armamento da população, como ele), mas não exerce liderança sobre elas. No Congresso, costuma circular com o filho Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) a tiracolo.

É parado para selfies com jovens, parabenizado por eleitores, chamado por visitantes para comentar alguns assuntos. Mas não empolga os colegas de Parlamento. “Não é um parlamentar efetivo, é midiático. Tem visibilidade pelo seu caráter autoritário, mas é um parlamentar ineficaz, sem peso nas decisões importantes”, afirma o diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) Antônio Augusto de Queiroz. 

A família Bolsonaro tem mais representantes no Legislativo brasileiro do que ao menos cinco partidos registrados: PCO, PSTU, Novo, PCB e PPL. São dois deputados federais, um deputado estadual e um vereador. Assim como o pai, Eduardo Bolsonaro, 33 anos, ocupa uma cadeira na Câmara, mas por São Paulo. Flávio Bolsonaro, 36, exerce mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e Carlos Bolsonaro, 34, é vereador no Rio. 

Reportagem completa: 

Jair Bolsonaro, o mito de pés de barro


                                                 

                                                         Os livros mais vendidos no Amazon:
Os livros mais vendidos no Amazon:






Comentários